A energia e a energia eólica

 

Na atualidade, de aproximados 140 mil Megawatts de capacidade instalada no país, a energia eólica – proveniente da ação dos ventos - representa uma fatia de apenas 1%. É muito pouco? Certamente. É que a inserção dessa energia na matriz energética nacional requer muito mais que a certeza dos bons ventos. Porém tem a oportunidade de ser a bola da vez.

Na corrida para ser a bola da vez, temos que analisar algumas variáveis, entre elas: as outras matrizes consolidadas de geração de energia elétrica (hidráulica, térmica e nuclear); a busca pela eficiência energética; e o consumo.

Da matriz consolidada com origem hidráulica, estima-se ainda a possibilidade de implantação de mais do que a capacidade total da potência atualmente instalada no país, todavia, caracterizações negativas como o longo prazo de maturação dos empreendimentos, as restrições ambientais, potenciais previstos em terras indígenas, potenciais previstos em unidades de conservação etc, resultam impactos substanciais na consolidação da expansão da matriz elétrica. Por sua vez, a caracterização da geração térmica convencional decorre dos combustíveis esgotáveis e muito poluentes; e a caracterização da origem nuclear é agravada pela questão da operacionalidade de seu processo; e estas últimas, nutridas para uma desaprovação popular.

Por eficiência energética, podemos entender uma matriz virtual que pretende evitar a implantação de 10% da capacidade instalada. O conceito objetiva cooperar no balanço de potência de forma positiva, pois se busca uma redução em demanda, em consumo e em custos, decorrentes de novas tecnologias agregadas a melhoramentos de geração, de aprimoramento de processos produtivos, da conscientização do consumo etc. Em qualquer planejamento de expansão a eficiência energética estará presente.

Os dados do governo já se mostram revistos para 2009 por decorrência da redução do crescimento econômico projetado de 2% para 0,5% quando relacionado com 2008. Isto implica afirmar que o consumo nacional de energia será reduzido com relação ao estimado.

Todavia, todos os indicadores já indicam uma leve recuperação da economia, porém, o que vemos aumentando é a cota de participação de serviços enquanto que a indústria, aonde se consome a maior parte da energia, ainda não expressou uma recuperação que possa levar a expectativa um PIB nos moldes anteriormente previstos. Por decorrência d o aumento da cota de serviços, é natural a ocorrência das atividades, mas que não se pode medir um consumo de energia na mesma proporcionalidade.

Mas, por que a energia eólica depende muito mais do que bons ventos? Podemos elencar condicionantes como a questão do marco regulatório, ou seja, “quando, quanto e como” será a inserção dessa energia gerada dentro do atual sistema, e isto não se resolve do dia para a noite; a necessidade de um inventário mais completo e integrado dos fatores climáticos e seu comportamento num país continental; a certeza de bons projetos; tarifas adequadas, e, a função social dessa energia.

É preciso planejar bem. A energia eólica está no conjunto das Fontes Alternativas de Energia, e é neste contexto que analisaremos a sua inserção, decorrente do Plano decenal 2008 a 2017. Nele, constam 5.328 MW a serem inseridos no Sistema, todavia, 3.285 já foram pré-definidos em leilões anteriores, restando 2.043 MW de fontes indicativas com entradas para todos os Subsistemas (N, NE, SE/CO, S).

Das fontes de energias renováveis, a energia eólica se apresenta como a mais forte alternativa das que buscam consolidação na matriz energética nacional. Com a aproximação do leilão específico a ser realizado no dia 25 de Novembro do corrente ano, o cadastro de 13.341 Megawatts junto a EPE – Empresa de Pesquisa Energética, vinculada a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, representa 10% de toda potência instalada no país, e que entendemos graduar esta fonte energética para depois pleitear individualização na matriz nacional.

Não se sabe, porém, ainda quanto deverá ser contratado no leilão que se avizinha, mas certamente cairia muito bem a cota remanescente de fontes alternativas para este primeiro leilão. É preciso, porém avançar com o marco regulatório dessa matriz de energia. Um replanejamento dos planos de inserção de energia ao Sistema considerando a energia eólica individualizada já seria um grande avanço. A energia eólica deverá se desvincular das fontes Alternativas

Variáveis como a segurança do suprimento e minimização dos custos da expansão, tudo de forma ambientalmente sustentável, não é só de aplicação apenas para a matriz eólica, mas para todas as matrizes energéticas. Está comprovada que a energia eólica é uma energia complementar, portanto, a questão do planejamento do suprimento deve estar atrelada as aberturas dos reservatórios hídricos.

O custo marginal da Expansão da energia que hoje é de R$ 146,00 / por Megawatts-hora1, é resultante da composição hidro-térmica. Este valor não corresponde à expectativa da energia eólica, talvez, como alternativa para análise, a resultante de um mix dessa tarifa com a tarifa Proinfa, hoje em torno de R$ 270,00 / por Megawatts hora.

Os 13.341 Megawatts em 441 projetos já desenvolvidos e cadastrados representam um conjunto de informações climatológicas de varias partes do país que podem obrigar a criar diretrizes e ações planejadas de inserção e expansão desse divisor energético nacional, e a energia eólica pode agregar ainda muito mais.

Dentre áreas de potencial eólico, o Estado do Rio Grande do Norte pode ser um Estado gerador de grande parte dessa energia a ser ofertada no leilão de novembro por apresentar bons projetos. Por bons projetos entendemos os localizados em área de ventos regulares e de alto potencial; com bom estudo ambiental realizado; e com alternativas de escoamento da potência gerada.

Numa demonstração da função social que a energia eólica integra, podemos exemplificar tomando-se como satisfatória a cota das energias alternativas remanescente de 2.043 Megawatts para contratação no leilão deste ano, e, estimando que 50% dessa energia seja contratada de bons projetos desenvolvidos no Estado do Rio Grande do Norte, poderemos testemunhar neste Estado uma circulação de riquezas que trará benefícios para vários setores, abrangendo proprietários, cadeia produtiva, setor de serviços, Estado e Municípios, porém, é preciso se organizar.

Esboçando alguns comparativos com base na premissa acima, é possível estimar que a totalidade do concreto a ser utilizado nas bases dos aerogeradores daria para construir 09 estádios do Maracanã; o aço das bases daria para construir 07 Torre Eiffel; e o aço consumido nas torres daria para construir outras 28 Torre Eiffel; se evitaria uma combustão de 900.000 litros de óleo diesel por hora; e ainda se evitaria a emissão de 3.060.000 toneladas de CO² por ano na atmosfera.

De alguma forma, gestões governamentais precisam ser realizadas para atrair partes desses efetivos quinhões da economia para a região.

Em especial aos Estados e Municípios, nos parece justa uma compensação financeira pelo uso territorial como contrapartida para as ações de, por exemplo, turismo e de infra-estrutura necessária às áreas dos projetos.  Isto é possível, criando-se as “limitações administrativas”, que é um instrumento jurídico que não descaracteriza a propriedade privada, mas que poderá carrear recursos para o plano diretor definido pelo progresso da energia eólia.


Fonte: Tribuna do Norte